Minha biblioteca virtual e como abandonei o papel

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Eu sempre tive o hábito de comprar os livros necessários pra estudar. Durante o colégio eu era um cliente frequente dos cebos da cidade. No início da até tentei continuar comprando os livros, porém, os livros da graduação costumam ser extremamente caros e difíceis de encontrar nos cebos. Quando encontro já são versões muito antigas e desatualizadas. Com o tempo fui percebendo que as aquisições não estavam compensando, boa porta dos livros eu só usava por um ou dois semestres. Também não estava sendo nada prático carregar peso levando livros para a a faculdade. E somado a isso tudo, a biblioteca da faculdade não têm uma grande variedade de livros.

Aos poucos fui cogitando a ideia de virtualizar toda a minha biblioteca, de começar a adquirir livros virtuais. No início relutei muito pois sempre tive um certo saudosismo com o papel. Tudo começou com um LEV, o leitor de livros digitais vendido pela Saraiva. Hoje faz 4 anos que o possuo e não me arrependo. Após ganhá-lo comecei a comprar livros de leitura apenas na forma digitail (em epubs). Era extremamente mais fácil carregar apenas o lev para os lugares e já ter toda a minha biblioteca de livros comigo, armazenada na memória do aparelho.

Contudo, demorei muito para fazer o mesmo com os livros da faculdade. E outro problema é que PDFs (que são os formatos que livros didáticos costumam ser distribuídos) não funcionam muito bem nos leitores de epub. Por muito tempo cogitei comprar um tablet para levar para a faculdade. Contudo, na época, os tablets estavam muito caros e só tinham à venda modelos ultrapassados.

Depois de um ano e meio carregando peso e tirando muitas xérox, consegui comprar um computadorinho bem simples e barato. Na verdade esse notebook veio a ser o verdadeiro BBB (Bom, simples e barato). Com o notebook comecei a adquirir apenas livros digitais, em PDF. Hoje tenho acumulado gigabytes e mais gigabytes de arquivos. Não só de livros mas também de vídeos e artigos. Acumulei uma verdadeira biblioteca virtual.

Então, começou a surgir uma nova preocupação: como organizar todos esses arquivos? Os livros ficavam dividos entre vários pendrives e computadores, completamente desorganizados. Era até difícil de tentar encontrar onde eu os tinha salvo. Pra piorar, meu notebook só tem 32 Gb de armazenamento. Constantemente preciso apagar uns livros que não venho mais usando para poder usar os novos.

Qual a solução que encontei? Instalei um servidor em casa. Pequei um netbook bem velho que estava acumulando poeira aqui em casa, com um processador relativamente econômico (um intel atom) e instalei o ubuntu server nele. Em seguida instalei e configurei um servidor Nextcloud. Hoje consigo ter acesso a todos os meus arquivos de forma organizada em todos os meus aparelhos.

Sevidores caseiros são o futuro

Eu, de verdade, acredito que daqui a alguns anos todos deverão ter servidores em suas casas. Aos poucos todos os documentos estão comensando a se tornar digitais. Já percebemos isso com a carteira de motorista e mais recentemente com a carteira de estudante. Livros já são facilmente vendidos e distribuidos em formato digital. Todos os protocolos e cadernos do ministério da saúde são disponibilizados em PDFs.

Da mesma forma que as pessoas organizam prateleiras ou estantes para guardar seus livros, no futuro, todos deverão reservar um “espaço” para guardar seus arquivos digitais. Hoje em dia o armazenamento em nuvem é largamente utilizado e cumpre essa função. Mas, sinceramente, acredito que no futuro o uso de servidores caseiros se tornará mais popular. Não gosto nem um pouco da ideia de armazenar arquivos pessoais no servidor de uma empresa qualquer. Prefiro ter meu próprio servidor sobre meu próprio domínio, onde posso tomar todas as medidas necessárias de segurança.

Meu servidor hoje funciona como uma estante de livros. Acabou que nem uso mais papel. Superei o meu saudosismo, algo que nunca imaginaria acontecer a alguns anos. Sempre achei que seria o tipo de pessoa que não abandonaria livros de papel por nada. Como já mencionei, tudo mudou quando adquiri o leitor de ebooks e fui convertido para o lado negro da força. A praticidade e economia me conquistaram. Mesmo assim, vez ou outra eu ainda compro um livro de papel. Quando gosto muito de um livro, faço questão de comprar a forma física.

Mas e se o computador quebrar? Ou se faltar internet? Não é perigoso ficar dependente da tecnológia?

Eu pensava exatamente assim. Sempre achei que era muito arriscado manter documentos digitais ao invés de físicos. Contudo, aos poucos fui percebendo que, na verdade, manter documentos físicos é algo extremamente perigoso. Basta um incêndio para perder tudo. Ou mesmo esquecer algum livro em algum lugar, como já aconteceu comigo (perdi o livro Carandiru do Drauzio Varela. Isso sem contar o tanto de livros que emprestei e nunca mais vi novamente). Com os arquivos digitais, eu consigo fazer backups e armazenamentos redundantes, de forma que mesmo que um servidor do nada exploda, eu tenho os mesmos arquivos em outro. Fui aos poucos chegando à conclusão que é muito mais seguro armazenar cópias digitais.

A questão da internet é o menor dos problemas. O servidor funciona em rede local. Basta ter uma rede wifi ou um cabo de internet para conseguir transferir os arquivos. E, mesmo assim, ainda é possível recorrer aos bons e velhos pendrives.

O medo de perder os resumos

Eu sempre morri de medo de perder os meus resumos. Comecei a faculdade fazendo resumos à mão no papel. Andava sempre com meu o caderno na bolsa e meu maior medo era perdê-lo. Se isso acontecesse, todo meus estudos para a prova seriam jogados fora e, provavelmente, eu me lascaria na prova. Sou uma pessoa muito dependente de resumos para me sentir seguro de fazer uma avaliação.

Hoje meus resumos são todos digitais e sincronizados com a nuvem caseira. O medo de perder o caderno não existe mais, uma preocupação a menos. Além disso, até pelo celular consigo acessá-los dar aquela revisada.

É o fim do papel?

Na verdade eu ainda uso um pouco de papel. Durante as consultas e os plantões eu levo meu caderinho onde faço anotações para posteriormente digitar no computador. Faço isso pois ficar escrevendo no celular em frente aos pacientes não é muito elegante, podem achar que estou batendo papo no whatsapp, por exemplo.

E mesmo assim o Brasil está longe de abandonar o uso em massa do papel. Na maioria dos hospitais em que já fui, o sistema de prontuários é extremamente arcáico. São fichas e mais fichas para preencher. Vez ou outra um prontuário é desaparece e é dado como perdido. Alguns hospitais do SUS já possuem prontuários online, mas a grande maioria deles faz uma mistura entre os prontuários online e os em folhas de papel.

Acredito que no futuro os livros em papel serão algo mais requintado, reservado para publicações especiais ou comemorativas que busquem atrair a nostalgia das grandes massas.