Por que os casos de gripe aumentam no inverno?

medicina gripe

Chega o inverno e o frio começa a atacar. Nessa época começamos a notar um grande aumento na quantidade de pessoas gripadas, com espirros e tosses tornando-se frequentes. Mas por que será que o frio favorece a gripe? Muitas pessoas até associam o frio ou o vento gelado como o causador da gripe. Até a palavra “resfriado” já remete ao “frio”.

Antes de começar, preciso esclarecer que gripe e resfriado são doenças diferentes. A gripe é causada pelo vírus influenza e costuma ser muito mais debilitante que um simples resfriado.

Incidência da gripe no Brasil

Em 2018, foram notificados 35 mil casos de síndrome respiratória aguda grave. Destes, 6.700 foram causados pelo vírus da influenza. A maioria (57%) pelo subtipo H1N1. A curva de incidência do vírus influenza ao longo do ano de 2018 pode ser vista abaixo.1

Gráfico de casos

Como podemos ver no gráfico, entre as semanas 12 e 29 ocorrem os picos de incidência. Essas semanas correspondem mais ou menos aos meses de março a julho. Justamente o nosso período de inverno.

Também em 2018, houveram 1.381 óbitos causados pelo vírus influenza. Ou seja, ano passado a taxa de mortalidade por influenza foi de 0,66 mortes para cada 100.000 habitantes.1

Gráfico de óbitos

Em 76% dos óbitos os pacientes se enquadravam em pelo menos um dos fatores de risco para a gripe. Na tabela abaixo podemos ver a distribuição. Vale lembrar que a vacina está justamente recomendada para as pessoas que pertencem a esses grupos de risco.

Tabela de óbitos

Fatores que favorecem a transmissão da gripe

Agora que já sabemos o quanto a gripe é prevalente e possui uma significativa morbidade, por que sua incidência aumenta no inverno? Os principais fatores estão listados abaixo.

Aglomeração humana

A gripe é transmitida pelo contato direto com pessoas infectadas. Por meio de espirros, tosse e secreções nasais, as partículas virais infectantes são carreadas de uma pessoa para outra.

No inverno as pessoas tendem a se aglomerar mais em locais fechados, seja para fugir da chuva ou se acomodar em estabelecimentos aquecidos. Essa aglomeração facilita muito a transmissão do vírus da gripe. Uma única pessoa infectada pode transmitir a doença para dezenas.2

Umidade do ar

Em baixas umidades as partículas virais conseguem permanecer mais tempo suspensas no ar, na forma de aerossóis. Dentro de pequenas gotículas dispersas no ar, os vírus ficam flutuando no ambiente, aguardando a inoculação pela próxima vitima.

De forma inversa, em altas umidades, é mais fácil que essas gotículas condensem, somando-se às gotículas de água já presentes na atmosfera.3

No Brasil a queda na umidade relativa do ar ocorre mais no fim do inverno e varia muito de acordo com as cidades.4 Nesta matéria do Nexo Jornal, é possível conferir a variação da umidade em todos os estados nacionais.

Portanto, ar-condicionados são um importante fator facilitador de transmissão, uma vez que reduzem a umidade do ar. É bem comum em salas de aula com ar-condicionados que a turma inteira acabe contraindo a doença. Basta apenas um aluno contaminado para infectar boa parte da turma.

Redução das temperaturas

Ainda não se conhece nenhum mecanismo biológico que faça temperaturas baixas facilitarem a infecção. A temperatura parece ser mais um fator indireto, pois favorece a aglomeração de pessoas, como já dito acima. Mas também pode ser que o fator biológico ainda não tenha sido descoberto, uma vez que a relação entre menores níveis de temperatura e maior contágio é real. Dessa forma, ainda não sabemos se existe, de fato, uma relação causal.

Algumas hipóteses cogitam que as partículas virais conseguem sobreviver mais tempo em baixas temperaturas, mas ainda é um campo muito especulativo. Outra possibilidade é que a defesa imunológica esteja reduzida em baixas temperaturas.

O papel da luz e da melatonina

Alguns estudos relacionam a diminuição da incidência solar com a maior chance de contrair a gripe em ratos. As hipóteses para explicar essa possível relação associam os baixos índices de melatonina (um hormônio responsável pelo nosso ciclo circadiano) a uma redução da imunidade. Além disso, outra molécula que parece ter impacto na imunidade é a vitamina D, produzida pelo nosso corpo durante e exposição ao sol.5

Contudo, esses são estudos ainda em estágio inicial que postulam explicações. Mais estudos são necessários para confirmar se essa associação existe em humanos e se ela realmente desempenha um impacto significativo em nossa imunidade.

Vacina da gripe

Sabendo que a cada inverno ocorre o pico de casos de gripe, o ministério da saúde sempre libera as vacinas no inicio dessa estação do ano. No caso, as vacinas já estão liberadas e acessíveis nos postos de saúde.

Como vimos, a gripe é uma doença bastante prevalente e de significativa mortalidade. Sabendo que suas complicações podem ser evitadas ou, pelo menos, diminuídas com uma simples vacina, por que não se imunizar?

A vacina usa como alvo duas proteínas virais: a hemaglutinina (H) e a neuraminidase (N).5 Essas são justamente as proteínas que dão os nomes aos subtipos virais (H1N1, H3N2, etc). Com a imunidade a essas proteínas, nosso corpo consegue evitar a infecção ou, ao menos, torna-la mais branda. Os anticorpos contra hemaglutinina fornecem proteção contra a infecção e os anticorpos contra a neuraminidase oferecem proteção contra formas graves da doença.2

Por que a vacina é anual?

Ora, a ideia da vacinação é conferir imunidade duradoura a uma certa doença. Não é a toa que para a maioria das vacinas tomamos poucas doses e já estamos imunes por longos períodos de tempo. Por que então para a gripe a vacina é anual?

Isso ocorre devido à capacidade de mutação dos vírus influenza. As proteínas hemaglutinina e neuraminidase sofrem constantes mutações. Assim, as partículas virais que não conseguem infectar pessoas vão deixando de existir e vão dando lugar aos novos vírus mutantes que conseguem invadir as pessoas, uma vez que a população não possui imunidade para eles. Não bastasse isso, cepas virais antigas ainda podem voltar à ativa, acometendo pessoas que deixaram de manifestar a imunidade antes possuída.6

É por isso que todo ano novas vacinas precisam ser produzidas, mirando as novas cepas de vírus mutantes que estão em circulação. Esse é o principal fator para afirmar que a vacina da gripe não é 100% efetiva. As pessoas ainda podem se contaminar com cepas mutantes que não são cobertas pela vacina, já que as estas começam a ser produzidas 6 meses antes do início da campanha.7 A eficacia da vacina gira em torno de 70-90% em adultos saudáveis.2

Conclusão

Como podemos ver, esse ainda é um assunto muito estudado e muito desconhecido. É muito interessante como uma doença tão comum ainda é tão pouco compreendida.

Além da vacina, alguns hábitos podem ajudar na redução da transmissão da gripe. Como espirrar sempre com o antebraço tapando o nariz (evitar usar a mão) e lavar constantemente as mãos.

Referências

  1. Secretaria de vigilância em saúde, Ministério da saúde. Informe epidemiológico. Influenza: monitoramento até a semana epidemiológica 52 de 2018. Link para o boletim epidemiológico  2

  2. Cox NJ, Subbarao K. Influenza. The Lancet. 1999;354(9186):1277-1282. doi:10.1016/S0140-6736(99)01241-6  2 3

  3. Shaman J, Kohn M. Absolute humidity modulates influenza survival, transmission, and seasonality. Proceedings of the National Academy of Sciences. 2009;106(9):3243-3248. doi:10.1073/pnas.0806852106 

  4. Nexo: Como é a umidade do ar nas capitais ao longo do ano. Rodolfo Almeida e Gabriel Zanlorenssi, 25 Set 2017 (atualizado 04/Mai 18h32) Link para a matéria (acessado em 13 de Abril de 2019) 

  5. Lofgren E, Fefferman NH, Naumov YN, Gorski J, Naumova EN. Influenza Seasonality: Underlying Causes and Modeling Theories. Journal of Virology. 2007;81(11):5429-5436. doi:10.1128/JVI.01680-06  2

  6. Carrat F, Flahault A. Influenza vaccine: The challenge of antigenic drift. Vaccine. 2007;25(39-40):6852-6862. doi:10.1016/j.vaccine.2007.07.027 

  7. Gerdil C. The annual production cycle for influenza vaccine. Vaccine. 2003;21(16):1776-1779. doi:10.1016/S0264-410X(03)00071-9