Os cigarros eletrônicos e a doença misteriosa

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Os cigarros eletrônicos (ou DEFs — dispositivos eletrônicos para fumar) são aparelhos que funcionam a base de baterias e que aquecem compostos químicos gerando aerosois, uma fumaça, que é inalada pelo usuário. Foram inicialmente projetados em 1963, mas só começaram a ser comercializados nos Estados Unidos em 2007. A partir daí, foram ganhando cada vez mais popularidade entre os jovens que nem chegam a se considerar fumantes, mas sim vapori zadores (ou vapers). Os DEFs costumam conter menos compostos tóxicos ou em menores concentrações que os cigarros convencionais, mas ainda assim não estão isentos de riscos, continuam possuindo compostos já conhecidos pelo seu potencial carcinogênico. Os cigarros eletrônicos também são muito usados para a inalação de compostos como o canabidiol (CBD), tetrahidrocanabinol (THC) e outros óleos.1

Ilustração do conteúdo de um cigarro eletrônico (DEF)
Ilustração do conteúdo de um cigarro eletrônico — DEF. (Fonte: INCA 2016)

Nos Estados Unidos, a primeira morte aparentemente ligada ao novo cigarro foi relatada em 23 de agosto desse ano. Na época, já haviam 193 casos de atendimentos médicos por doenças relacionadas ao cigarro eletrônico.2 Agora, até o momento em que publico esse artigo, parece que já houveram 6 mortes e 450 pessoas hospitalizadas com estes quadros clínicos sugestivos, nos EUA.3 A suspeita de os DEFs serem os culpados começou pois ele é o único ponto em comum entre todos os doentes.

Um artigo do New England Journal of Medicine compilou 53 casos de afecção pulmonar muito semelhantes ocorridos nos estados de Wisconsin e Illinois. Todos os casos não tinham uma explicação definida para o quadro, sendo excluidas causas infecto-contagiosas (todos que fizeram uso de antibióticos mantiveram a progressão do quadro pulmonar), reumatológicas e oncológicas. O que todos os pacientes apresentavam em comum era justamente o fato de serem usuários dos cigarros eletrônicos há pelo menos algumas semanas. Foram adimitidos nos hospitais com sintomas progressivos de dispńeia, dor no peito, tosse, fadiga e hipoxemia. Também apresentaram sintomas constitucionais como febre, e acometimento de outros sistemas, como o gastrointestinal.4 6 dos 53 pacientes chegaram a apresentar episódios de hemoptise, 30% já possuiam diagnóstico de asma e todos tinham alterações radiográficos na tomografia computadorizada de tórax, evidenciamento acometimento nos pulmões. Dos 53, um evoluiu para óbito.

Para termos uma noção da gravidade dos casos, 38% dos pacientes tiveram uma saturação (sob ar ambiente) de oxigênio entre 89-94%, e 31% estavam saturando menos que 89%. 4 pacientes tiveram pneumomediastino, 5 tiveram derrame pleural e 1 teve pneumotórax.

Algumas das imagens radiográficas podem ser vistas na postagem feita pelo NEJM em sua conta do instagram:

O que chama atenção para o caso, é que a maioria dos pacientes são muito jovens, com uma média de 19 anos e intervalo de 16 a 53 anos. Outra peculiaridade é a gravidade do quadro agudo. Sabemos que os efeitos do uso de cigarros convencionais começam a aparecer a longo prazo e de forma bem mais arrastada. Não achei um dado no artigo do NEJM sobre a quanto tempo esses pacientes faziam uso do cigarro eletrônico, mas a julgar pela idade, dá pra imaginar que talvez não seja a muito tempo.

Qual o composto exato que está causando essa síndrome? (i.e. se ela realmente estiver associada aos DEFs)

Em entrevista ao New York Times, Dr. John Holcomb, um pneumologista de San Antonio - USA, disse que o FDA não tem controle sobre quais substâncias estão contidas nos cigarros eletrônicos.2 Também existe a suspeita de que os usuários estão abrindo os aparelhos e preenchedo-os com compostos químicos próprios, não originais do produto. Existe ainda a possibilidade de venda de produtos falsificados com compostos de baixa qualidade. A verdade é que muito ainda precisa ser esclarecido sobre o que está causando essas condições em jovens e até levando à morte.

Há dezenas de tipos diferentes de cigarros eletrônicos e vaporizadores. Neles, nicotina, THC ou aromatizantes são misturados a um tipo de solvente ou óleo. Esse líquido serve como difusor da nicotina ou do THC, ao ser aquecido, transformado em vapor e inalado pelo usuário.5

O curioso é que esses produtos já são vendidos nos EUA a 15 anos e recentemente começaram a aparecer os casos de doenças pulmonares agudas em pessoas que começaram a fumar a poucos meses. Parece que houve alguma mudança nos cigarros nos últimos anos.

Um relato de caso de 2012 já apresentava um caso de pneumonia lipoide por uso de cigarros eletrônicos em uma mulher de 42 anos que fumava a 7 meses.6 Essa pneumonia é causada pela aspiração de lipídios e inicialmente imaginaram que a causa do quadro poderia ter sido a exposição aos óleos de glicerina que compoem os DEFs. Não cheguei a pesquisar novos casos após esse de 2012 até por que não tenho muito tempo para isso (mas adoraria, quem sabe depois). Queria postar aqui as radiografias desse caso de 2012 mas a licensa da revista não permite. Felizmente as imagens podem ser vistas no site da revista sem necessidade de assinatura.

Enfim, existem vários outros compostos que podem estar associados a esses quadros pulmonares. E, provavelmente, ainda há a associação e combinaçao de todos esses fatores. Fica até difícil tentar estudar o efeito isolado de cada um pra saber qual ou quais os verdadeiros culpados.

Cigarro eletrônico versus cigarro convencional

Qual o mais prejudicial a saúde? Li em vários sites comentários sobre os DEFs serem menos maléficos para a saúde que os cigarros convencionais. Mas não sei se isso é realmente é vedade.

Será que a transição para os eletrônicos facilita na tentativa de parar de fumar? Em 2016, o INCA fez uma grande publicação com um grande apanhado sobre o que se sabia dos DEFs. É um documento bem completo e muito bem escrito que, infelizmente, não tive tempo de ler completamente.1

Nele, achamos o seguinte trecho:

Estudos demonstraram que jovens que usam cigarros eletrônicos são menos propensos a parar de fumar (Odds Ratio 0,1 - 0,2), enquanto adultos fumantes que usam DEF têm alta tendência à dupla utilização (cigarros eletrônicos e cigarros regulares), expondo-se a maiores riscos para a saúde.1

Não pretendendo evoluir muito essas duas últimas perguntas, até por que não estou com muito tempo agora. Mas jogo elas no ar com alguma informação preliminar. Quem sabe, sejam tema para uma futura postagem.

Referências

  1. INCA. Cigarros eletrônicos: o que sabemos? Estudo sobre a composição do vapor e danos à saúde, o papel na redução de danos e no tratamento da dependência de nicotina. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva; organização Stella Regina Martins. Rio de Janeiro, 2016.  2 3

  2. Richtel M, Kaplan S. First death in a spate of vaping sicknesses reported by health officials. The New York Times. https://www.nytimes.com/2019/08/23/health/vaping-death-cdc.html. Published August 23, 2019. Accessed September 15, 2019.  2

  3. Doward J. After six deaths in the US and bans around the world – is vaping safe? The Guardian. https://www.theguardian.com/society/2019/sep/15/how-safe-is-vaping-e-cigarettes-deaths-bans. Published September 15, 2019. Accessed September 15, 2019. 

  4. Layden JE, Ghinai I, Pray I, et al. Pulmonary illness related to e-cigarette use in illinois and wisconsin — preliminary report. N Engl J Med. September 2019:NEJMoa1911614. doi:10.1056/NEJMoa1911614 

  5. A misteriosa doença ligada a cigarros eletrônicos que já matou seis pessoas nos EUA. G1. https://g1.globo.com/bemestar/noticia/2019/09/12/a-misteriosa-doenca-ligada-a-cigarros-eletronicos-que-ja-matou-seis-pessoas-nos-eua.ghtml. Accessed September 15, 2019. 

  6. McCauley L, Markin C, Hosmer D. An unexpected consequence of electronic cigarette use. Chest. 2012;141(4):1110-1113. doi:10.1378/chest.11-1334