O efeito placebo e a humanização da medicina

medicina placebo

Placebo é qualquer medicamento ou procedimento inerte e desprovido de valor terapêutico conhecido, mas que induz algum tipo de resposta quando administrado em pacientes que acreditam estar sendo medicados.1 Por exemplo, pacientes com dores que ingerem pílulas de açúcar achando que estão tomando um analgésico podem sentir redução na dor. Sabidamente as pílulas de açúcar não deveriam provocar uma resposta terapêutica mas isso ocorre devido a mecanismos psicológicos. A resposta ou efeito provocado pela administração do placebo é chamada de efeito placebo.

Os mecanismo de placebo mais estudado são os efeitos analgésicos.1 Em estudos sobre controle da dor, pacientes que fazem uso de placebos possuem uma melhor evolução comparado a pacientes que não recebem nenhum tipo de intervenção ou tratamento.

Entretanto, não são apenas agentes físicos, como pílulas e injeções, que induzem o efeito placebo. Variáveis sociais e psicológicas como conversas, sugestionamentos, comportamentos e condicionamentos também exercem influência.1 Uma boa relação entre um médico e um paciente, de modo que o paciente se sinta bem acolhido e assistido, já pode ter efeito somatório na eficácia do tratamento ou terapia, também por efeito placebo. Nem que seja apenas na redução da dor, já é um efeito positivo.

Mesmo a medicina nos fornecendo evidências de que interações sociais positivas exercem efeitos na evolução de pacientes, ainda é muito comum vermos críticas de médicos serem frios, egoístas, insensíveis. E como a sociedade enxerga nesses médicos a personificação da ciência médica, acaba que a própria ciência começa a ser desacreditada. É nesse cenário que começam a surgir os negacionistas e os conspiracionistas.

Quais os mecanismos responsáveis pelo efeito placebo?

O papel central da expectativa

Em um estudo desenvolvido por Pollo, et al.2 pacientes de pós-operatório foram divididos em 3 grupos:

Em seguida, todos os pacientes foram informados de que poderiam requisitar novas doses de analgésicos a qualquer momento. Após o término do estudo, os autores verificaram que os pacientes do grupo 3 solicitaram 20% menos doses, e os do grupo 3 solicitaram 33% menos, ambos em comparação ao grupo 1.

Ou seja, esse estudo mostrou que os dois grupos que sofreram uma intervenção verbal tiveram melhor resposta aos analgésicos. Contudo, o grupo que recebeu instruções de certeza obteve uma resposta muito melhor que o grupo que recebeu instruções incertas. Esse é um exemplo de como nossas expectativas influenciam na eficácia de tratamentos. A incerteza dos pacientes do grupo 2 reduziu a eficácia da resposta.

O condicionamento

O condicionamento é outro fator que parece estar muito relacionado à eficácia do efeito placebo. Esse mecânismo funciona como uma forma de aprendizado prévio. Pacientes que aprenderam a associar um placebo a uma resposta positiva podem manifestar melhores resultados em testes futuros.

Além disso, pacientes que escutam experiências de conhecidos que responderam bem a um tratamento placebo, tem mais chances de apresentarem também um melhor resultado nesse mesmo tratamento.

O paradigma open-hidden

Eu traduziria como “paradigma exposto-oculto”. Esse paradigma se baseia na constatação de que pacientes que sabem estar recebendo uma medicação (administração exposta) possuem resposta terapêutica muito mais efetiva comparado aos pacientes que receberam a medicação de forma oculta (com um computador administrando o fármaco de forma intravenosa sem que o paciente saiba quando e sem nenhum profissional estar presente no local).3

O simples fato de saber estar recebendo uma medicação já provoca uma expectativa no paciente que, consequentemente, acaba induzindo um efeito placebo.

O mais interessante nesses estudos é que nenhuma substância placebo foi administrada, o componente placebo envolvido é apenas a interação entre o profissional e o paciente e o conhecimento do paciente de estar sendo medicado. Isso nos mostra que o placebo pode ser uma situação abstrata, incluindo interações sociais.

Efeito nocebo

De forma oposta ao efeito placebo, também existe ao efeito nocebo. Nesse caso, os compostos ou procedimentos inertes induzem respostas negativas nos pacientes. Isso ocorre pois o paciente espera um resposta negativa ou foi condicionado a crer nisso. Da mesma forma que o placebo, porém ao contrário.

Já não bastasse a falta de cuidado deixar de ofertar um efeito positivo nos pacientes, ela ainda pode induzir um efeito negativo. A má relação entre profissionais de saúde e pacientes pode ser prejudicial. Ainda não vi um estudo quantificando e investigando se essa associação realmente existe e se é relevante, mas, sinceramente, me parece que sim. Um paciente mal acolhido pelos médicos pode criar expectativas negativas acerca de seu tratamento.

Claro que essa é uma área de estudo muito recente. Eu estaria sendo muito ingênuo de afirmar que acreditar na melhora sempre trará resultados ou benefícios. Mas o que a literatura nos diz até agora é que a expectativa tem um importante papel e um grande efeito orgânico em nosso corpo. E independente de estudos confirmando, nutrir boas relações com a população é algo fundamental.

Referências

  1.  2 3

  2. Pollo A, Amanzio M, Arslanian A, Casadio C, Maggi G, Benedetti F. Response expectancies in placebo analgesia and their clinical relevance: Pain. 2001;93(1):77-84. doi:10.1016/S0304-3959(01)00296-2 

  3. Colloca L, Lopiano L, Lanotte M, Benedetti F. Overt versus covert treatment for pain, anxiety, and Parkinson’s disease. The Lancet Neurology. 2004;3(11):679-684. doi:10.1016/S1474-4422(04)00908-1