Meu primeiro plantão de 12 horas

#Vivências
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Depois de dias lendo e pesquisando apenas sobre a pandemia de COVID-19, resolvi me dar uma folga do coronavirus. Vou aproveitar esses dias de quarentena para finalizar alguns rascunhos de postagens que eu vinha escrevendo.

Já fazem meses que dei meu primeiro plantão de 12 horas. E já dei vários depois desse. Há muito tempo que eu queria escrever esse texto, mas fui adiando e adiando por falta de tempo até cair no ostracismo. Finalmente terminei de escrever pra deixar documentado esse momento único da minha vida.

Minhas expectativas

Sempre romantizei muito o ato de “dar plantão”. Por mais que sempre tenham me dito que é muito cansativo, exaustivo, desgastante, adicione aqui seu adjetivo; sempre imaginei que seria muito divertido.

Não posso dizer que eu sempre quiz ser médico, mas a partir do momento em que tomei essa decisão – lá pelos meus 17 anos – sempre fui extremamente empolgado com a área. Sou o tipo de estudante que não vê a hora de começar a trabalhar e colocar a mão na massa.

Dar um plantão de 12 horas era uma experiência que eu aguardava ansiosamente desde que entrei na faculdade. Já tinha dado “mini plantões” de 4 horas, mas eu queria mais. 4 horas para mim era apenas um tiragosto da experiência completa.

Então, claramente que fui extremamente ansioso e cheio de expectativas dar o meu primeiro plantão.

Conhecendo o serviço

Fui aprovado no estágio de obstetrícia de um hospital de referência aqui da cidade, uma maternidade de alto risco. Os plantões são noturnos, das 19 às 7 horas e ocorrem na sala de parto (SP), onde as gestantes normalmente estão em trabalho de parto ou fazendo indução para tal.

Como era um hospital completamente novo pra mim, eu não sabia nem onde entrar para pegar o elevador até o setor. Por sorte tive uma dupla maravilhosa que compartilhou comigo as angustias de principiante. Começando pela timidez de se apresentar como os novos estagiários e pedir as roupas.

Após as apresentações, a primeira coisa que fiz foi ir no quarto de descanso e escolher minha cama. Forrei o colchão, me vesti com o “pijama” do hospital e desci para a sala de parto.

Lá, uma doutoranda (estudantes dos últimos anos de medicina que estão apenas pagando estágios curriculares obrigatórios) gentilmente se prontificou a nos apresentar o serviço, nos explicar os protocolos e como as coisas costumam funcionar.

Precisei aprender muita coisa besta, do dia a dia, que não é ensinada em sala de aula. Como fazer folhas de prescrições tendo que usar o famigerado papel carbono, já que lá as prescrições precisam ser feitas em duas vias. Aliás, já apanhei muito pra esse bendito papel carbono. Várias vezes posicionei do lado errado e a tinta saia impressa no verso da folha ao invés do papel de baixo.

É muito importante conhecer bem o serviço. Saber onde as coisas são guardadas, onde os procedimentos são feitos. Isso vai te dar independência, não vai precisar ficar pergunta o tempo todo onde está cada coisa.

Quando chego num hospital novo, tento fazer uma varredura visual explorando e mapeando o território.

A rotina do plantão

A rotina lá na SP é basicamete ficar reavaliando de hora em hora as gestantes em trabalho de parto ou em indução de trabalho. Quando surge algum parto ou procedimento, nós também auxiliamos.

Normalmente, a primeira avaliação da noite é bem mais completa, fazendo uma anamnese e exame físico geral de todos os sistemas. As avaliações seguintes são mais direcionadas, verificando apenas pressão arterial, frequência cardíaca, batimentos cardiofetais, dinâmica uterina e perguntar por possíveis sintomas. Os toques vaginais só são feitos quando há real necessidade.

Quando precisamos reavaliar uma gestante que vai começar uma nova fase de sulfato de magnésio – geralmente para prevenir eclâmpsia – aí temos que fazer um exame mais detalhado. Somamos ao exame padrão: ascultas cardíacas e pulmonares, frequências cardíacas e respiratórias, reflexos patelares e diurese.

No início eu demorava demais avaliando cada gestante. Me enrolava nas perguntas, fazia careta quando me perguntavam algo que eu não sabia reponder. Várias vezes eu terminava de examinar, me despedia da gestante e em seguida lembrava que havia esquecido de avaliar alguma coisa. Ai tinha que voltar no leito e dizer “desculpe, esqueci de ver seu pulso”.

A pior coisa é que no início eu não seguia uma ordem muito lógica de exame. Eu fazia os passos meio que aleatoriamente. Por exemplo: eu pedia para a pacinte sentar e aferia a pressão, aí pedia pra deitar e fazia o resto do exame. Depois eu me lembrava que precisava auscultar e ver os reflexos patelares, aí pedia pra sentar de novo. Esse deita e senta claramente incomodava bastante as pacientes e refletia muito minha insegurança. Hoje eu já me adaptei. Primeiro peço pra paciete sentar e faço tudo que necessito com ela sentada (aferir pressão auscultar, etc) depois peço pra deitar e termino o exame.

Sempre fui muito cuidadoso aferindo a pressão arterial das gestantes. Na obstetrícia é fundamental uma boa técnica de aferição. Diferenças de 10 ou mesmo 5 mmHg podem ocasionar mudanças drásticas na conduta. O plantão de obstetrícia é a noite toda aferindo pressão.

No início eu levava um papel pra ficar anotando todos os dados das avaliações. Eram tantas informações que eu me perdia. Mas com o tempo a gente se acostuma e deixa o papel de lado. A mente vai criando gavetas pra guardar todos os dados até passar pro prontuário. É uma questão de prática mesmo.

Como lá é uma maternidade de alto risco, é comum ver gestantes com diversas comorbidades. Asma, cardiopatias, endocrinopatias, doenças dermatológicas, etc. É um plantão de obstetrícia que as vezes tem um gostinho de clínica médica. É comum aparecer pacientes com valvopatias e asma, necessitando que nossas habilidades de ausculta estejam em dia.

Os plantões vão ensinando algo que sala de aula nenhuma é capaz de ensinar, a postura diante dos pacientes. Passar sempre uma sensação de confiança e segurança não é algo fácil e exige prática.

A adrenalina

Já dei vários “mini plantões” de 4 horas em vários outros serviços. Então, eu já tinha experimentado essa sensação de adrenalina nos plantões, principalmente nos de cirurgia geral, em que chegavam pacientes acidentados de tudo quanto era jeito.

Mas nos plantões de obstetrícia a adrenalina é de um tipo muito peculiar. Por mais que esteja tudo calmo na sala do pré-parto, de repente tudo pode começar a se agitar e virar um caos. A calmaria pode virar tempestade em questão de milésimos, ainda mais numa maternidade de alto risco.

E o caos aqui não significa necessariamente alguma complicação grave acontecendo, como pacientes sangrando ou pior. Significa muita coisa acontecendo e dificuldade pra prestar atenção em tudo.

Curiosamente, os dois primeiros plantões que dei foram os mais frenéticos. Logo no primeiro plantão várias gestantes pariram ao mesmo tempo – as contrações delas devem ter entrado em alguma forma de ressonância. E imaginem minha situação, era minha primeira vez lá. Eu não tinha muita proatividade e autonomia de pegar compressas, posicionar e acalmar as gestantes. Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, pacientes gritando, os residentes correndo e eu no meio perdido sem saber o que fazer.

Aliás, têm que ter muito “tato” pra lidar com gestantes em trabalho de parto. Elas estão num leito de hospital sentindo fortes dores de minuto em minuto. O que você pode fazer por elas? O que podemos fazer é tentar conversar e deixar o ambiente agradavel, fazê-las se sentir a vontade. Mas eu não tinha essa noção muito bem consolidada nos primeiros plantões. Na minha timidez eu preferia só ficar calado e evitar dizer coisas vazias como “respira, respira”. Esse “tato” só se aprende com a prática.

Tirando um cochilo e perdendo a hora

Como os plantões são noturnos, a madrugada costuma ser mais calma. Com isso, os plantonistas podem se dividir em duplas ou trios para revezar as tarefas da madrugada e dormir um pouco.

Normalmente temos 4 horas para cochilar. Normalmente, pois dependendo do plantão, se tiver muito agitado, esse intervalo pode cair para 3 ou mesmo 2 horas.

Mas enfim, foi minha primeira vez dormindo num hospital e tive 4 horas de descanso. De meia noite subi pro quarto para tirar minha soneca. Como o quarto é compartilhando com outros médicos, enfermeiros e estudantes, eu não queria colocar um despertador para tocar de 2 horas da madrugada e acordar todo mundo. Então tive a brilhante ideia de colocar o alarme apenas para vibrar e deixar o celular no meu peito.

O resultado é de se imaginar. O celular ficou vibrando por mais de 40 min e eu nada de acordar. Só fui acordar de 3 horas, notando assustado que perdi a hora e correndo para render a pessoa que deveria ter trocado de turno comigo uma hora atrás.

Como era meu primeiro plantão, a pessoa até me perdoou, mas é bem óbvio que ela não ficou nada contente.

Hoje eu sempre durmo com fones de ouvido e coloco o alarme do celular para tocar no fone. Também me forço a dormir em decúbito dorsal (de barriga pra cima), posição que acho extremamente desconfortável. Porém, se eu me virar de lado entro em sono profundo e difilmente vou acordar mesmo com o despertador. Durmo bem mal mas pelo menos não perco a hora de render o coleguinha.

Na verdade dormir é uma palavra muito forte, eu tiro cochilos mesmo. Quando não tenho aula no outro dia é bem tranquilo, pois durmo toda a manhã seguinte. Mas quando tenho aula… ai só me resta lutar contra as pescadas ou me render e dormir na aula.

Saudades dos plantões

Agora com a pandemia de COVID-19 os plantões do estágio foram suspensos. Eu adoraria estar lá ajudando mas entendo perfeitamente que provavelmente os estudantes estariam apenas ajudando a disseminar ainda mais o vírus, como vetores. Agora só me resta aguardar essa pandemia passar para desfrutar de mais plantões maravilhosos.

Fazendo um paralelo com as minhas expectativas antes de saber o que era dar um plantão, agora vejo que realmente é bastante cansativo. Mas o tanto que tem de cansativo tem também de prazeroso e recompensador.

Sobre o autor

Olá! Eu sou Filipe Mosca. Sou acadêmico de medicina e tenho um profundo interesse em ler e escrever sobre medicina em geral, desde a ciência até temas filosóficos e humanitários.

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