O ministro que ousou se basear em ciência

#Notícias #MBE

Recentemente eu venho elogiando bastante o ministro Luiz Henrique Mandetta por sua condução do ministério da saúde. Apesar de poder apenas falar de suas atitudes durante o período da pandemia, pois antes disso eu não o acompanhava de perto.

O atual ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta

Desde o início da quarentena que eu venho acompanhando as lives diárias do Ministério da Saúde, sempre às 17 horas. O que mais me impressionou em suas falas foram as citações de papers científicos. pela primeira vez eu vi um ministro (ou melhor, um político) dizendo que leu artigos de uma revista científica publicados no dia anterior! Mandetta estava se referindo às recentes publicações sobre o possível benefício do uso da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19 da NEJM. E vinha se mostrando muito coerente e sensato na interpretação das evidências.

Assistindo às lives do Ministério da Saúde, eu até tinha a impressão (leia-se, ilusão) de que o governo estava sendo sério. Se ignorássemos a existência do presidente, o país estava sim sendo bem comandado em meio a essa crise mundial de saúde.

Mas é claro que a alegria e ilusão durariam pouco. Ontem eu recebi a bombástica notícia de que Bolsonaro havia decidido demitir Mandetta. Aparentemente o presidente não aceita que seu ministro se baseie em ciência para tomar as condutas.

Tuíte do Globo

O que Mandetta fez de errado para receber desaprovação do presidente? Se baseou em estudos científicos de revistas prestigiadas, seguiu orientações de órgãos internacionais e deu voz para cientistas.

Felizmente, como de praxe, Bolsonaro voltou atrás de sua decisão. Mandetta vai sobreviver por ao menos mais algumas semanas no cargo.

Tuíte da Veja, algumas horas depois

Mesmo com o presidente recuando, já está claro que Mandetta está com os dias contados. Por mais que ele continue a frente do ministério durante toda a pandemia, certamente será demitido logo que a situação se normalizar. Isso tudo é muito triste, pois um médico que está fazendo um excelente serviço, baseando-se em ciência e mostrando o poder que o SUS tem em administrar uma crise tão catastrófica como essa, é visto como um inimigo pelo presidente.

Em seguida, Mandetta se pronunciou em entrevista e eu senti umas indiretas em suas falas:

“Nós vamos continuar, porque continuamos, vamos continuar enfrentando o nosso inimigo, que tem nome e sobrenome, o Covid-19”, disse, em entrevista coletiva no ministério. “Temos uma sociedade para lutar e proteger, médico não abandona paciente e não vou abandonar.”

“Hoje foi um dia que rendeu muito pouco o trabalho do ministério”, brincou. “Teve gente limpando gaveta, pegando as coisas. Até as minhas gavetas.”

O pior de tudo é que o mais cotado ao cargo de substituir Mandetta é o, também médico, Osmar Terra. Aliás, descobri esses dias que Osmar é médico e simplesmente não acreditei. Terra chegou a defender a “tese” de que “o isolamento pode até mesmo aumentar o número de casos” (?).

Tuíte sinistro de Osmar Terra

Neste momento está mais do que claro que Jair Bolsonaro (nome e sobrenome) é o maior inimigo do Brasil. Que Deus tenha piedade desta nação.

Sobre o autor

Olá! Eu sou Filipe Mosca, acadêmico de medicina pela Universidade de Pernambuco. Tenho um profundo interesse em ler e escrever sobre medicina baseada em evidências.

Inscreva-se Twitter