O estudo que projetou distanciamento social até 2022 por causa da COVID-19

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Essa semana, dia 14 de Abril, foi publicado um estudo na revista Science1 projetando modelos de transmissão após o surto inicial da pandemia. O artigo repercutiu bastante nos noticiários e nas redes sociais, sendo taxado por alguns como “alarmista demais”.

Isso pois em uma das projeções as medidas de distanciamento social (prolongado ou intermitente) podem ser necessárias até o ano de 2022, o que assustou muita gente. Vou explicar isso ao longo do texto.

O estudo se baseou em dados de sazonalidade, duração da imunidade isolada e cruzada com os demais betacoronavírus (HCoV-OC43, HCoV-HKU1, SARS-CoV-1, MERS) e proporção de leitos e hospitalizações nos EUA. A partir desses dados, foi possível criar um modelo estimativo da dinâmica de transmissão para o SARS-CoV-2 (o novo coronavírus, causador da COVID-19) em regiões de clima temperado, até o ano de 2025.

Em todos os modelos, o Novo coronavirus foi capaz de gerar grandes surtos em qualquer épóca do ano, apesar de o pico ser maior no inverno.

O melhor indicador pra avaliar a qualidade do distanciamento social é verificar a taxa de ocupação de leitos de UTI. Quando a capacidade é insuficiente, ocorre um colápso do sistema de saúde, faltando leitos para os pacientes. No momento, a única forma de prevenir isso é a adoção das medidas de distanciamento social.

Vou discutir agora os achados e projeções desse estudo.

Duração da imunidade

Se a imunidade ao SARS-CoV-2 não for permanente, isto é, uma vez infectado o indivíduo ainda pode sofrer nova infecção, o novo coronavirus entrará em num padrão de circulação sazonal semelhantes aos demais vírus que causam a gripe comum.

Se a imunidade for de curto prazo, assim como para os vírus HCoV-OC43 e HCoV-HKU1 (com duração de aproximadamente 40 semanas) então os surtos devem ser anuais. Já se a imunidade for de longo prazo, aproximadamente 2 anos, então os surtos devem ser bienais.

Se a imunidade for permanente, isto é, uma vez infectado o indivíduo está protegido para o resto a vida, o novo coronavirus pode levar 5 anos ou mais para desaparecer.

Imunidade cruzada

Hoje nós sabemos que a infecção pelo SARS-CoV-1 pode gerar anticorpos neutralizantes contra HCoV-OC43 e a infecção por HCoV-OC43 pode gerar anticorpos reativos cruzados contra SARS-CoV-1. Mas será que também existe imunidade cruzada para o SARS-CoV-2? Ainda não sabemos, mas podemos trabalhar com suposições.

Baixos níveis de imunidade cruzada dos outros betacoronavírus contra o SARS-CoV-2 podem fazer com que o SARS-CoV-2 desapareça momentaneamente e depois ressurja após alguns anos.

Por exemplo, numa situação em que a imunidade ao SARS-CoV-2 dure 2 anos e a imunidade cruzada pelos outros coronavirus corresponda por 30%, a COVID-19 pode “sumir” por até 3 anos e ressurgir em 2024.

Tem alguma notícia boa?

Bom, se o SARS-CoV-2 produzir alguma imunidade cruzada com os outros coronavirus, então a incidência destes pode reduzir ao longo do tempo.

Curiosamente, se a imunidade permanente ao SARS-CoV-2 também produzir 70% de imunidade cruzada contra os HCoV-OC43 e HCoV-HKU1, poderíamos observar a eliminação virtual na circulação desses outros vírus.

O cenário até 2022

Agora vamos falar sobre a polêmica do isolamento até 2022.

Em todas as projeções, as infecções voltaram a crescer após a suspensão das medidas de isolamento. E, curiosamente, o distânciamento social muito longo e rigoroso pode fazer com que o pico de ressurgimento seja muito elevado, pois poucas pessoas terão adquirido imunidade e seriam vitimas de um novo surto. Por exemplo: numa projeção com distânciamento social de 20 semanas e com redução de 60% do R0, o tamanho do pico de ressurgimento era quase o mesmo que o de pico da epidemia não controlada.

A solução para isso pode ser adotar períodos de distânciamento social intermitente, de modo a impedir a lotação dos serviços de saúde e controlar os novos picos de infecção quando os indivíduos suscetíveis começarem a sair de casa. Nessa estratégia, as pessoas iriam se infectando e adquirindo imunidade aos poucos, sem a ocorrência de grandes surtos que colapsem o sistema de saúde.

Mas esse distânciamento intermitente precisa ser muito bem planejado, pois há um atraso de mais ou menos 3 semanas entre a adoção do isolamento e o início da redução dos casos. Isso devido à história natural da doença e o período de incubação.

Nesse cenário, ao longo do tempo em que a população for adquirindo imunidade, o período entre a adoção e suspensão do isolamento poderá ir sendo prolongado aos poucos.

Agora vamos para a projeção de quanto tempo duraria essa estratégia se fosse implementada.

Considerando o pior cenário possível, em que não haja imunidade cruzada do HCoV-OC43 e HCoV-HKU1 contra o SARS-CoV-2 (dentre outras variáveis que não vou detalhar aqui mas estão no artigo) a projeção indicou que essa estratégia seria necessária até pelo menos o ano de 2022. Isso considerando que até lá não sejam encontrados medicamentos ou vacinas efetivas.

Contudo, se as capacidades do sistema de saúde fossem consideravelmente aumentadas, isso permitiria maior flexibilização do distanciamento social, permitindo que a população adquira imunidade de forma mais rápida sem que haja exaustão do sistema de saúde.

De modo semelhante, a descoberta de uma vacina ou um tratamento efetivo também séria crucial para reduzir o tempo necessário para a população adquirir imunidade sem exaurir o sistema de saúde.

Conclusão

Para deixar tudo mais claro, o estudo trabalha com vários cenários. No pior deles, temos essa previsão de isolamento necessário até 2022. Claro que o estudo tem muitas limitações. Nós sequer sabemos a duração da imunidade proporcionada após infecção pelo SARS-CoV-2 e além disso os dados são baseados nos EUA e para clima temperado.

Na minha concepção, o objetivo deste artigo foi, baseado em modelos matemáticos, tentar prever qual seria o pior cenário possível e usá-lo como uma linha de horizonte para nos prepararmos hoje. É importante termos essa noção para pensarmos em medidas que diminuam o impácto econômico, de saúde e educacional. Por mais que essa projeção não se concretize, precisamos estar preparados para ela.

Como o estudo discute, aumentar a capacidade de leitos e a busca por uma vacina e tratamentos são fundamentais para impedir esse cenário.

A testagem em massa da população também seria muito interessante para tentar medir a porcentagens de indivíduos que já teriam adquirido imunidade e fornecer mais dados pensando em como planejar o distanciamento intermitente.

Citações

  1. Kissler SM, Tedijanto C, Goldstein E, Grad YH, Lipsitch M. Projecting the transmission dynamics of SARS-CoV-2 through the postpandemic period [published online ahead of print, 2020 Apr 14]. Science. 2020;eabb5793. doi:10.1126/science.abb5793.

Sobre o autor

Olá! Eu sou Filipe Mosca, acadêmico de medicina pela Universidade de Pernambuco. Tenho um profundo interesse em ler e escrever sobre medicina baseada em evidências.

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