Alien: o oitavo passageiro, 1979

Cinema resenha critica alien

Tá aí um filme que demorei bastante para assistir. Só fui finalmente contemplar essa obra este ano. Dirigido por Ridley Scott e publicado em 1979, Alien: o oitavo passageiro (não gosto dessas adaptações brasileiras dos títulos) é tido como um clássico do gênero sci-fi-horror.

Esse texto está repleto de spoilers. Recomendo que você primeiro assista o, na versão theatrical cut, e depois venha ler essa análise.

A primeira vez que assisti foi a versão director’s cut, na tela do celular, de madrugada e no quarto do hospital em que meu irmão estava internado. Nessa ocasião o filme não me agradou como eu esperava. Claramente os fatores ambientais contribuíram para reduzir a imersão e a apreciação. Na época eu tinha pensado “vai ser uma experiência interessante assistir um filme de sci-fi-horror alienígena no hospital”. Não foi.

Alien
Atenção para a bela construção do xenomorfo

Na época o filme não me pareceu ser brilhante como diziam por aí. Muito provavelmente eu tive essa impressão pois assisti pela primeira vez a exatos 40 anos após o lançamento. Se o filme trouxe algo de original eu não seria capaz de julgar.

Após assistir pela segunda vez ontem, na versão Theatrical cut, enxerguei o filme com outros olhos. E assistir “Aliens” logo em seguida me fez gostar ainda mais de “Alien” (Na resenha de Aliens explico o porquê). Dessa vez, Alien conquistou o seu lugar no meu coração.

O universo

Tá aí o componente que sempre me atrai. Construa um universo totalmente único e vá inserindo apenas alguns elementos aos poucos, permitindo a quem assiste imaginar o resto. Esse é o segredo para me conquistar, assim como fez Blade Runner — cuja resenha escrevi recentemente.

O filme começa e a única informação que temos deste mundo que é que se trata de uma nave comercial que está fazendo uma longa viagem (os tripulantes estavam hibernando), transportando uma refinaria e muitas toneladas de minério, num mundo futurístico. Também fica evidente que neste universo os Humanos já conhecem formas de vida extra-terrestre.

Introdução
Introdução do filme

Também descobrimos que existe uma certa corporação que coordena as missões e que contratou os tripulantes. Existem muitos protocolos e códigos de conduta no espaço e um desses códigos obriga os viajantes a investigar qualquer sinal de vida inteligente.

Mais à frente, ficamos perplexos em descobrir que o cientista da equipe na verdade é um robô programado para proteger formas de vida desconhecidas e trazê-las a salvo para a Terra. Inclusive achei muito legal o conceito dele ser constituído principalmente por flúido assim como somos praticamente água.

Space Jockey
Essa cena é bonita demais

Essa é a informação do universo que nós temos, o resto é por sua conta. É um plano de fundo bastante simples mas ao mesmo tempo infinito. Fica a nosso cargo imaginar este mundo, imaginar os interesses dessa empresa em possuir formas de vida (talvez para uso militar) e imaginar o que levou cada personagem — um cientista, dois engenheiros, uma piloto, uma subtenente, um oficial e um capitão — a embarcar na nave Nostromo.

A trama principal

Assim como o universo é bastante simples, o enredo principal também o é. Trata-se basicamente de um filme sobre um Alien solto na nave, perseguindo os viajantes.

Mas esse enredo bruto é enriquecido por uma relação bem conflituosa entre os tripulantes, um subplot envolvendo um impostor androide e a evolução monumental da personagem de Sigourney Weaver, Ripley. É impressionante como a simplicidade do filme é tão bem elaborada, resultando numa grandiosa obra de arte.

A tripulação

Assistindo eu achei curioso o modo como os tripulantes parecem se odiar, ou no mínimo não se importam nem um pouco uns com os outros. Parker e Brett ficam o tenpo todo reclamando do salário e dizendo que trabalham demais enquanto os outros não estão nem aí para as suas reivindicações. Ripley e Dallas começam a trocar farpas, com ela questionando sua autoridade. Ash é inexpressivo o tempo todo e parece estar sempre calculando algo.

Kane morre de forma brutal e os personagens ao redor nem chegar a demonstrar muito remorso ou desespero — exceto por Lambert. Aliás, por mais que a personagem de Veronica Cartwright, Lambert, tenha poucas falas, acho ela essêncial para o climax da trama. Ela é a única a realmente demonstrar pavor e reagir emocionalmente aos acontecimentos. Enquanto os demais estão frios e de certa forma conseguindo, não sei como, suportar o estresse psicológico, ela está desesperada. Sua atuação é impecável e transmite o pavor no telespectador.

Talvez os personagens são apáticos com as mortes dos companheiros pois eles se conhecem muito pouco e não tiveram tempo para criar vínculos emotivos. Na cena em que Ripley pergunta a Dallas quantas viagens ele fez com Ash, Dallas responde que essa é a primeira.

Café da manhã
A agradável cena do "café da manhã" dos tripulantes. No mesmo local que ocorrerá a cena mais chocante...

Essas desavenças criam um contraste bem legal pois na hora de lutar contra o Alien eles precisam ao menos deixar de se odiarem.

Chest Bursting
...Essa cena aí

Ripley

Agora vamos falar da protagonista. E que protagonista! Logo no início, na cena em que trazem Kane com um Alien chupando seu rosto para dentro da nave, eu já me identifiquei com ela. Você não precisa ser da área de saúde para saber que formas de vida desconhecidas podem trazer doenças e contaminar a nave e o resto da equipe. Enquanto que os outros personagens parecem não ter nenhuma racionalidade, Ripley surge como a única dotada de bom senso ali no meio.

Rippley
Nossa musa

Também é bem interessante que no início o filme, o protagonista ainda não está definido. Ao longo da trama Ripley vai se destacando e crescendo como personagem, até percebermos que ela é a protagonista.

Sua evolução é notável. Ela começa querendo se impor mas sem que os outros lhe deem muitos ouvidos, até se tornar a líder e ganhar a atenção no meio do desespero. Temos uma protagonista feminina em plena década de 80 num papel que não envolve pares românticos nem nada do tipo.

Lembram que lá em cima falei que ter assistido Aliens (1986) me fez gostar ainda mais deste filme? Foi exatamente por causa da Ripley, mas isso explico na resenha de Aliens.

O Alien e o parasitismo

O mais legal é que o ciclo de vida do Alien possui plausabilidade biológica. O parasita adulto se preocupa de não matar seus hospedeiros pois são sua fonte de nutrientes quando ainda estão na “fase larval”.

Eu poderia fazer um paralelo com doenças parasitárias que realmente existem, como a esquistossomose, ascaridíase, estrongiloidíase e tantas outras. Provavelmente vou escrever um artigo comparando o parasitismo do Alien com as demais verminoses humanas.

Ciclo de vida do Alien
Formas do ciclo de vida do xenomorfo

A ideia de “sangue ácido” é linda num universo de sci-fi e leva em conta características evolutivas de sobrevivência da espécie. Os predadores não vão querer caça-lo para logo em seguida morrer pelo ácido.

Da prá ver que a figura do Alien foi criada com esmero. Não é apenas um monstro que aparece do nada e sai gritando e matando todo mundo. É uma figura biológica tão complexa como as demais que existem na Terra.

Versão de cinema ou do diretor?

Esse filme pode ser encontrado em duas versões: a Theatrical cut, original exibida nos cinemas, e a Director’s cut, publicada em 2003. As duas possuem praticamente a mesma duração (116 e 117 minutos), isso quer dizer que cenas foram substituídas ao invés de apenas adicionadas.

Ridley Scott já se pronunciou dizendo que prefere a versão Theatrical e que foi obrigado pelo estúdio a fazer uma versão do diretor que no fim das contas não o agradou.

As principais diferenças da versão do diretor são a adição de uma cena em que Dallas foi mantido vivo num casulo pelo Alien e Ridley toca fogo nele. As outras várias mudanças podem ser vistas aqui. Eu particularmente prefiro a versão exibida nos cinemas.

Conclusão

Esse filme é uma obra de arte que ultrapassa as barreiras de sua época e continua atual (talvez excetuando a cena da explosão bem tosca da nave, com jeitão de que foi feita no paint com aquele pincel de spray).

Em seguida vou escrever minha visão sobre a sua sequência, o filme Aliens de 1986, outra obra prima, e vou explicar porque o segundo filme me fez gostar ainda mais do primeiro.

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